Saltar para o conteúdo

Giorgia Meloni e o teste do poder em Itália

Mulher a discursar em púlpito com bandeiras italiana e europeia e imagens de pessoas e mar ao fundo.

Ao chegar ao poder, em outubro de 2022, Giorgia Meloni foi encarada por muitos como a resposta à paralisia estrutural da economia e da sociedade italianas. Para outros, a sua vitória significava o pior cenário possível. Passados três anos e meio, nenhuma dessas previsões se confirmou: a primeira mulher a chefiar o Governo em Itália continua a procurar um ponto de equilíbrio, tentando provar que é possível governar de forma conservadora, soberanista e culturalmente afirmativa sem resvalar para o autoritarismo. Esse é, em grande medida, o teste que se coloca ao executivo em funções - e o critério pelo qual o legado de Meloni acabará por ser avaliado.

Este é já o terceiro Governo mais duradouro da república italiana e, se chegar a setembro, tornar-se-á o mais longo da história do país. Meloni, que fez campanha prometendo virar a página do pós-fascismo, combinou, porém, esse objetivo com um populismo antieuropeu que rompia, no discurso, com as instituições da União Europeia. Ainda assim, o seu gabinete tem sido, até agora, um dos mais estáveis da Europa. A proximidade ao Presidente norte-americano, Donald Trump (que se refere a Meloni como “grande líder” e “uma amiga”, apesar de a popularidade de Trump ter caído a pique no último ano em Itália), a subida dos preços da energia e, sobretudo, a pesada derrota no referendo do mês passado forçaram a primeira-ministra a reajustar o rumo e a relançar-se politicamente.

Quando o ocupante da Casa Branca atacou o chefe da Igreja Católica - Trump acusou Leão XIV de ser “fraco” e tolerante ao crime -, Meloni viu-se obrigada a tomar posição. “O Papa é o chefe da Igreja Católica, e é correto e normal que peça a paz e condene todas as formas de guerra”, afirmou a líder do Governo de coligação de direita, católica, num país que acolhe a Santa Sé e onde a maioria da população é católica romana.

Trump, que até então via Meloni como uma das suas aliadas entre os líderes internacionais (e como uma das poucas figuras com alguma margem para influenciar a Administração americana), reagiu de forma dramática: “Já não é a mesma pessoa”. Os dados sugerem que a mudança foi acertada: uma sondagem da YouGov realizada em março indicava que 80% dos italianos - fortemente dependentes do gás natural - tinham uma opinião desfavorável sobre Trump, em particular após o início da guerra com o Irão.

Da promessa ao teste do poder

“Este Governo está aqui, na sua capacidade máxima, determinado a dar o seu melhor até ao último dia do seu mandato”, declarou Meloni há semanas perante os deputados em Roma. “Comprometemo-nos a governar esta nação durante cinco anos, e é exatamente isso que faremos.” O executivo afasta a hipótese de eleições antecipadas e a primeira-ministra - que, segundo politólogos, tem trabalhado a transição da imagem de radical para a de pragmática - continua a conduzir a sua agenda num contexto internacional volátil. “Um aspeto notável à escala da instabilidade italiana é a sua capacidade de manter a coligação unida, mesmo perante consideráveis testes de stresse, e de manter a erosão dos seus índices de aprovação dentro de uma flutuação de 1%, à boleia de uma comunicação astuta e da competência de evitar gafes, que caracterizam a sua forma de governar”, observa Alessandro Ferrara, professor de Filosofia Política na Universidade de Roma Tor Vergata, que também leciona Teoria do Direito na Luiss Guido Carli.

A questão, porém, é o preço dessa estabilidade. Ferrara reconhece que se vive hoje “mais polarização em relação às mesmas questões de sempre, mais recentemente a remodelação dos órgãos administrativos do poder judicial”. Ainda assim, a coligação de Meloni assenta em três partidos - além de forças menores, de âmbito local: o seu partido, os Irmãos de Itália (com mais de 25% dos votos nas últimas eleições), a Liga, nascida no contexto do federalismo e do reforço do poder no Norte e que, sob Matteo Salvini (hoje vice-primeiro-ministro), evoluiu para um partido anti-imigração, e a Forza Italia, fundada por Silvio Berlusconi. “As guerras culturais mais agressivas e o slogan antiwoke são externalizados para a Liga, e Meloni, e parcialmente o seu partido, vão mantendo um perfil mais moderado”, explica o professor da Universidade de Roma Tor Vergata.

Alguns analistas defendem que, com Meloni no poder, pouco mudou na substância. Federica Genovese, professora de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade de Oxford, discorda: “O Governo de extrema-direita de Meloni remodelou a política italiana e, arrisco dizer, a política europeia, no sentido em que normalizou a capacidade dos movimentos de extrema-direita governarem o Estado.” Ainda assim, na prática, em várias frentes - sobretudo na política fiscal e nas relações internacionais -, Meloni seguiu tradições típicas de executivos tecnocráticos italianos, incluindo medidas interpretadas como austeridade. E, do ponto de vista constitucional, falhou a concretização de reformas de grande calibre, como a da justiça.

Com os ataques de Trump ao Papa, Meloni foi forçada a posicionar-se. “O Papa é o chefe da Igreja Católica, e é correto e normal que peça a paz”, disse

A derrota recente no referendo sobre a reforma do sistema judicial terá, muito provavelmente, enterrado o plano mais ambicioso de Meloni: reforçar o executivo através da eleição direta do primeiro-ministro. “A partir de agora e até ao final do seu mandato de cinco anos, o objetivo mais ambicioso de Meloni é evitar perder uma moção de censura e ter de se demitir”, avalia Alessandro Ferrara.

Estabilidade inédita num país instável

Quem governa um país com o peso e a relevância internacional de Itália acaba por obedecer a um imperativo eminentemente pragmático: impedir que a economia afunde e evitar que o país fique isolado no plano externo. Meloni percorreu um trajeto significativo - de ameaçar a saída do Euro a cumprir as regras de Bruxelas - e colheu ganhos, como o fecho da distância histórica entre as taxas de juro da dívida alemã e a italiana. “Isto significa uma enorme poupança no serviço da dívida nacional”, frisa o investigador da Universidade de Roma Tor Vergata. Na frente macroeconómica, a primeira-ministra governou com rigor orçamental, baixou o défice e preservou a credibilidade de Itália junto dos parceiros europeus. “Um feito notável para uma líder que muitos previam ser destruidora”, sublinha Lorenzo Castellani, investigador da Luiss Guido Carli, em Roma, que estuda a História das instituições políticas.

Os italianos viram, entretanto, o desemprego descer para 5,1%, o valor mais baixo desde 2004. Mas estes dados ocultam fragilidades: vários economistas apontam o elevado número de pessoas que não procuram trabalho e, por isso, não entram nas estatísticas de desemprego. Outros especialistas explicam a descida pelo impulso da construção civil associado a subsídios anteriores a 2022 (ano em que Meloni tomou posse) e aos fundos da UE pós-covid destinados a reforçar infraestruturas. Também o aumento da idade da reforma contribuiu para empurrar as taxas de emprego.

Alessandro Marrone, investigador do Instituto de Assuntos Internacionais, em Roma, nota que o Governo implementou uma agenda conservadora e de direita em múltiplos domínios: reduziu impostos para a classe trabalhadora e para a classe média, extinguiu subsídios como o reddito di cittadinanza (subsídio de cidadania), endureceu medidas de segurança e “investindo em infraestruturas nacionais como comboios de alta velocidade ou a ponte sobre o Estreito de Messina, entre Sicília e Calábria”.

Mais do que um plano rígido, politólogos identificam em Meloni uma forte capacidade de adaptação às necessidades do momento e uma preocupação em evitar excessos. Contudo, como admite Ferrara, “quando o seu principal objetivo é evitar o descrédito, nenhuma notícia é uma boa notícia”. Apesar de a longevidade do atual executivo ser uma exceção no panorama italiano, “em termos de políticas implementadas e reformas transformadoras, não houve nada de particularmente radical ou disruptivo”, sustenta Marco Improta, investigador de política na Universidade Luiss, em Roma.

A radical que é pragmática

Improta entende que a antiga ministra da Juventude de Silvio Berlusconi se limitou, sobretudo, a administrar o Estado, em vez de o reconstruir. Isso torna-se especialmente visível em duas frentes decisivas: economia e Europa. A política orçamental manteve-se amplamente prudente, com orçamentos marcados pela cautela, em detrimento de iniciativas expansionistas ou heterodoxas. Em paralelo, a atitude italiana na União Europeia permaneceu cooperativa e não conflituosa - mais continuidade do que rutura face aos governos anteriores.

Já a migração é, por contraste, o campo onde Meloni procurou exercer liderança de forma mais ativa, inclusive a nível europeu. Para um país com a exposição geográfica de Itália, devido às fronteiras marítimas, esta é uma questão particularmente sensível. Na campanha de 2022, Meloni reforçou apoios ao defender o controlo e uma eventual redução das entradas irregulares. No poder, isso traduziu-se em iniciativas como o acordo para criar centros de processamento de migrantes na Albânia. Esses centros geraram críticas relevantes, sobretudo por causa da eficácia limitada e da execução prática. Ainda assim, a migração permanece uma das áreas mais visíveis e politicamente centrais para Meloni, e um palco decisivo para projetar autoridade interna e liderança europeia.

É aí que se encontra “o principal terreno através do qual Giorgia Meloni exerce a soberania”, segundo Nando Sigona, professor de Migrações Internacionais e Deslocamento Forçado na Universidade de Birmingham. Na leitura de Sigona, o foco do Governo de Roma é “esmagadoramente nas fronteiras e nas chegadas: em impedir a entrada de barcos, externalizar o controlo e projetar a imagem de um Estado no comando”. Esse enquadramento, porém, esconde uma realidade estrutural com que a primeira-ministra se depara: “A economia italiana continua a depender fortemente da mão de obra migrante, particularmente em setores como a agricultura, a construção, a logística e os cuidados. A economia precisa de trabalhadores migrantes, mesmo que a política problematize a sua presença.”

Ambições travadas

O que emerge, então, é um modelo a duas velocidades: um controlo de fronteira altamente simbólico convive com uma dependência real do mercado de trabalho. Para Nando Sigona, “os trabalhadores migrantes são frequentemente direcionados para empregos precários e mal remunerados, onde a vulnerabilidade legal e as perceções racializadas reforçam a exploração”.

Perante o envelhecimento contínuo da população e a necessidade de compensar a emigração de jovens italianos, que têm saído do país em massa, a primeira-ministra avançou discretamente com uma política que autoriza a entrada legal de quase meio milhão de migrantes nos próximos três anos. Meloni assinara acordos polémicos com países do Norte de África para travar travessias no Mediterrâneo, criou um centro de detenção na Albânia para devolver requerentes de asilo rejeitados aos países de origem e chegou a ameaçar um bloqueio naval total para impedir a entrada de imigrantes ilegais. Ainda assim, a coligação conservadora admitirá até 497.550 imigrantes de fora da União Europeia num horizonte de três anos, para responder à falta de mão de obra e ao declínio demográfico.

Esta será a segunda vaga de imigração “legal”, depois de terem sido emitidas 450 mil autorizações entre 2023 e 2025. Muitos dos recém-chegados serão colocados em trabalho agrícola sazonal, com vistos de nove meses, que exigem o regresso ao país de origem após esse período. Contudo, podem pedir que o visto de nove meses seja prolongado por tempo indeterminado.

A medida pode soar paradoxal face à promessa de mão firme na imigração, mas, em paralelo, o Governo aprovou legislação para apertar o combate às chegadas irregulares por mar. A coligação tenta acelerar repatriamentos e restringir a ação das ONG que resgatam migrantes no Mediterrâneo. Assim, reforça-se politicamente a distinção entre entradas regulares e irregulares.

O paradoxo migratório italiano

Nando Sigona enquadra este momento numa mudança cultural mais ampla. “As narrativas de nação, família e identidade enquadram a diversidade menos como um facto social do que como um desafio à coesão. Neste contexto, a fronteira não se limita às fronteiras nacionais, reproduzindo-se também no mercado de trabalho e no quotidiano.” Sigona antecipa que esta lógica se prolongará por gerações. “A Itália continua a resistir a vias mais inclusivas para a cidadania para as crianças nascidas ou criadas no país, filhas de pais migrantes, reproduzindo, na prática, a exclusão ao longo do tempo. O sentimento de pertença é adiado, mesmo para aqueles que nunca viveram noutro lugar.”

No verão de 2025, o Parlamento aprovou um projeto de lei controverso destinado a reprimir manifestações e a alargar a proteção legal das forças de segurança. O decreto de segurança foi apresentado pelo Governo de direita de Giorgia Meloni e passou com 109 votos a favor, 69 contra e uma abstenção. O texto introduziu penas mais duras para crimes associados a protestos, incluindo danos materiais e ocupações ilegais. As forças policiais ficaram com poderes mais amplos e os agentes dos serviços de informações passaram a poder cometer certos crimes, por motivos de segurança nacional, sem serem alvo de processo.

Paolo Gerbaudo, sociólogo e teórico político na Universidade Complutense de Madrid, classifica o decreto de segurança como “legislação draconiana contra protestos e outros direitos civis”, lamentando que Meloni e aliados tenham vindo a “apoiar retoricamente as forças policiais, mesmo nas ocasiões em que estas se têm claramente comportado mal”.

As batalhas culturais

Para outros sectores, o mais relevante do período Meloni não foi uma política concreta, mas antes “uma gramática política” que se tornou corrente. Lorenzo Castellani, investigador na Luiss Guido Carli, em Roma, fala de “uma forma de falar de nação, soberania e identidade que, durante décadas, foi artificialmente suprimida do discurso dominante por um consenso antifascista do pós-guerra que nunca foi tão universal como os seus defensores alegavam”. Neste quadro, a fórmula “Deus, Pátria, Família” é entendida, por uns, como um regresso perigoso; por outros, como uma expressão legítima de um conservadorismo presente em todas as sociedades europeias. “Merece uma representação como qualquer outra”, minimiza Castellani.

A Itália assinalou recentemente aniversários de uma das maiores tragédias do país associadas à Segunda Guerra Mundial: o Massacre das Foibe, que matou entre 5 mil e 17 mil italianos. O episódio ocorreu a 1947, quando a antiga Jugoslávia (comunista) pretendia anexar a região italiana do Friulli-Venezia Giulia, no extremo nordeste. Quem se opunha era executado pelo exército do marechal Josip Broz Tito. “A elevação das foibe a um lugar central na memória nacional não é revisionismo; é o reconhecimento tardio de uma tragédia histórica que foi suprimida por razões políticas durante a Guerra Fria”, defende Castellani, argumentando que uma democracia madura deve comportar memórias múltiplas: a resistenza e as foibe, a coragem partidária e a violência comunista. “Meloni avançou nesse sentido e isso, no geral, é um contributo para a honestidade histórica, e não uma distorção da mesma”, acrescenta.

Marco Improta integra o grupo de analistas que considera que a governação de Meloni mexeu mais no clima político do que na lei, “principalmente porque não houve alterações legislativas particularmente abrangentes ou disruptivas”. Atualmente, a Itália pode ser lida como parte de um conjunto mais amplo de países marcados por guerras culturais e por formas de política ditas antiwoke - tendências que, com frequência, chegam dos Estados Unidos com algum desfasamento.

Ainda assim, há um traço mais italiano e com raízes históricas: a direita critica há muito o que chama de “hegemonia cultural” de esquerda, sobretudo nas artes, na música e no entretenimento, onde posições progressistas são muitas vezes vistas como dominantes ou socialmente desejáveis. Neste contexto, “houve tentativas de obter uma maior influência na esfera cultural”, admite Improta. A radiodifusão pública é, por tradição, o palco mais visível, por ser particularmente sensível a mudanças de poder e alternância de governos.

Media, poder e controlo

Lorenzo Castellani, que estuda a História das instituições políticas, defende que a reconfiguração do Estado é mais complexa do que afirmam os críticos. Sustenta que “as nomeações institucionais seguiram a lógica de todos os Governos italianos que assumiram o poder” e que “a esquerda nunca hesitou em preencher a RAI, as universidades e as instituições culturais com os seus próprios membros”.

“É diferente porque, desta vez, é a direita que o está a fazer, e um ecossistema mediático habituado ao domínio da esquerda liberal viveu-o como um ataque, e não como a rotação normal do poder”, acrescenta Castellani. Em 2024, jornalistas da estação pública fizeram greve devido ao que o sindicato descreveu como “controlo sufocante” do Governo, alegando que o problema crónico de interferência política se agravara desde a tomada de posse de Meloni. O professor aceita que existam preocupações legítimas sobre liberdade de imprensa e independência da RAI - e que exigem atenção e vigilância. Mas sublinha que “a Itália sempre teve um panorama mediático altamente politizado, sendo que a questão é de grau, não de essência”. E, segundo o especialista, esse grau “ainda não atingiu o limiar do verdadeiro retrocesso democrático visível na Hungria ou na Polónia”.

No ensino, Itália voltou a aplicar uma medida que reprova alunos por mau comportamento, invocando preocupações crescentes com agressões contra professores. A política de “notas por conduta” aproxima-se de uma iniciativa introduzida pelo Governo fascista de Benito Mussolini em 1924. Com esta lei, as escolas podem reprovar alunos com base apenas no comportamento. No ensino básico e secundário, quem tiver uma nota igual ou inferior a cinco em dez valores em conduta reprova nesse ano letivo e pode ter de o repetir, mesmo que as notas académicas sejam suficientes.

Educação com autoridade e os clássicos

Governo e Parlamento passaram a insistir mais no domínio da língua italiana, no património cultural nacional, nos textos clássicos, na poesia, na caligrafia e na reintrodução facultativa do latim. James L. Newell, professor de Ciência Política na Universidade de Salford, interpreta estas alterações como “tentativa de reancorar a educação numa ideia mais conservadora de transmissão cultural e autoridade”.

A presença de Itália como país convidado de honra na Feira do Livro de Frankfurt de 2024 tornou-se motivo de polémica: alguns autores consagrados alegaram que a apresentação oficial estava excessivamente alinhada com a orientação cultural do Governo. Além disso, a exclusão de Roberto Saviano - escritor que já criticou Meloni - da delegação oficial gerou protestos e boicotes de outros autores. Para Newell, tratou-se de um confronto sobre quem pode representar culturalmente a nação e sobre a possibilidade de a crítica ao Governo se tornar, de forma discreta, um entrave na diplomacia cultural oficial.

Apesar disso, a cultura não foi capturada de modo homogéneo. A Bienal de Veneza, sob nova presidência conservadora, não se transformou numa vitrina nacionalista: a edição de 2026 ficou nas mãos de Koyo Kouoh, a primeira mulher africana a assumir essa curadoria, contrariando as expetativas de uma simples viragem ao nacionalismo. “Isto é importante porque mostra que a era Meloni não está a produzir uma simples ordem cultural unipartidária; está a produzir um campo mais conflituoso”, sublinha Newell.

Paolo Gerbaudo vai mais longe e fala de uma tentativa de Meloni de alterar o clima do país. “Na política educativa, ao tentar introduzir elementos mais autoritários na educação e, em termos de reafirmação do orgulho nacional, também ao apagar a autoconsciência sobre a participação da Itália em massacres na Segunda Guerra Mundial e o respeito pela ordem e disciplina”, enumera. O investigador teme, ainda, que se normalize a ideia de que o passado fascista não é motivo de vergonha e de que Itália foi vítima da Segunda Guerra Mundial. “É isso que o partido de Meloni defende há muitos anos, promovendo inclusive celebrações nacionais nesse sentido, em memória dos italianos mortos às mãos dos partisans jugoslavos, mas omitindo o facto de a Itália ter invadido a Jugoslávia. De um modo mais geral, procura-se normalizar a ideia da primazia da nação, da nacionalidade, do patriotismo e da identificação com o país no seu todo.”

Para compensar a emigração de jovens italianos, Meloni introduziu uma política para autorizar a entrada de quase meio milhão de migrantes nos próximos três anos

A presença, no centro do Governo, de um partido com raízes na tradição pós-fascista - Fratelli d’Italia - deixou de ser tratada como exceção. “As referências a figuras ou símbolos historicamente associados a esta tradição são hoje consideradas menos politicamente tóxicas”, nota James L. Newell. “Há três anos, isto teria causado maior alarme nacional e internacional. Desde então, tem havido um certo grau de habituação.”

Meloni recorre com frequência à ideia de um “povo” coeso (de que se apresenta como representante mais autêntica) e dirige críticas às elites, aos tribunais e aos intermediários - um traço típico do populismo, que traduz impaciência perante limitações constitucionais ao poder executivo. Segundo Newell, esta retórica, antes mais circunscrita à oposição, é hoje “utilizada dentro do Governo sem grande estigma”. E contextualiza: “Esta mudança é importante porque, juntamente com os estilos de líderes populistas de outros lugares, mais obviamente o de Donald Trump, redefine subtilmente a linguagem legítima e os estilos de comunicação daqueles a quem foi confiada a responsabilidade de governar.”

Um país mais dividido?

Ao mesmo tempo, na leitura de Paolo Gerbaudo, os partidos da coligação falharam na concretização do que prometeram. “Porque ainda estão muito alinhados com o individualismo neoliberal de Berlusconi e sabem que o seu eleitorado não está preparado para os sacrifícios nacionais.” A reafirmação de autoridade estatal convive, diz o sociólogo, com uma forte desconfiança libertária relativamente ao próprio Estado. “Exemplo emblemático disto tem sido a forma como a direita abraçou a guerra cultural em torno do caso da chamada famiglia del bosco, um casal australiano que vivia numa cabana num bosque no centro de Itália, cujos filhos foram retirados da sua guarda por juízes devido a receios sobre o seu bem-estar. Em vez de apoiarem os juízes, Meloni e os seus aliados demonstraram total apoio ao casal que defendia o ‘regresso à natureza’.” Para Gerbaudo, o episódio revela uma incoerência de fundo na ideologia atual da direita nacionalista italiana.

No campo da família, a narrativa que mais se cristalizou é a de que o Estado deve favorecer a “família tradicional”, não como mais uma forma social, mas como instituição moral preferencial. Newell recorda como isso se expressou em tentativas de impedir municípios de registarem ambos os pais em crianças de casais do mesmo sexo, na oposição do Governo à parentalidade por casais do mesmo sexo e na lei de 2024 que criminaliza a gestação de substituição realizada no estrangeiro. “Estas medidas não criaram o conservadorismo italiano a partir do zero, mas fizeram com que uma definição mais excludente de parentalidade legítima parecesse senso comum na governação.”

Apesar da linha restritiva do Executivo, o Tribunal Constitucional avançou em sentido oposto: reconheceu direitos parentais de mães lésbicas em casos de fertilização in vitro e permitiu que pessoas solteiras adotem crianças estrangeiras. Isto, observa Newell, “recorda-nos que o Estado não foi capturado nem transformado de forma uniforme”. Também no quotidiano houve menos alterações do que alguns antecipavam. As uniões entre pessoas do mesmo sexo não desapareceram; pelo contrário, em 2023 atingiram o nível mais alto em seis anos, mesmo com o endurecimento da retórica e de políticas familiares. A sociedade italiana continuou a evoluir, ainda que partes do Estado tentassem impor um vocabulário moral mais estreito.

A realidade impõe-se

As reformas que ficaram por fazer prolongam uma condição antiga da política italiana. Durante décadas, a instabilidade governativa travou sucessivas tentativas de reforma estrutural. Meloni tentou dar ao executivo uma base constitucional mais sólida, mas, para muitos analistas e para os eleitores que chumbaram a proposta, tratava-se de um projeto discutível. Com a derrota no referendo sobre a reforma da justiça, outras mudanças institucionais tornam-se, agora, impraticáveis.

Mesmo com a longevidade relativa do Governo, é frequente ouvir que a transformação profunda prometida para a sociedade italiana não aconteceu. Em vez de uma Itália amplamente alinhada com a visão do mundo de Meloni, o país surge hoje como mais dividido e polarizado, com campos pró e anti-Meloni bem definidos. Uma leitura mais tradicional da família e da identidade de género “tornou-se certamente mais visível no discurso público, e esta é uma área que o Governo tem enfatizado”, refere Marco Improta, apesar do estilo “relativamente cauteloso” da primeira-ministra.

A agenda não foi desenhada para ampliar direitos civis, mas também não se observou uma estratégia clara de os restringir. “O aborto nunca foi seriamente posto em causa, e as figuras conservadoras mais radicais permaneceram em grande parte à margem da agenda do Governo”, exemplifica Improta, que vê sobretudo mudanças na narrativa coletiva: “Em comparação com 2022, a Itália de hoje parece mais à vontade para invocar abertamente a ideia de ‘patriotismo’, um termo que Meloni prefere a ‘nacionalismo’.” Esta perspetiva coloca a Itália como um país que deve afirmar-se com maior força dentro da Europa, e não contra ela - ou seja, procurar mais influência mantendo-se firmemente no quadro europeu.

O pragmatismo de Meloni tem-se aproximado de um realismo crescente quanto às limitações estruturais italianas, em especial no relacionamento com a União Europeia e com os Estados Unidos. A primeira-ministra deixou claro que, embora se possa criticar Washington, Itália não tem margem para romper essa relação. Como disse numa conferência de imprensa no início deste ano, o país não pode simplesmente “invadir os restaurantes da McDonald’s”. No passado, a aliança transatlântica era contestada de forma mais aberta, ainda que muitas vezes apenas no plano retórico.

Um rosto interno, outro rosto internacional

Com Meloni, Itália tem sido um aliado fiável na NATO e, em Bruxelas, um interlocutor construtivo - embora exigente - no apoio à Ucrânia. A lógica de duas pistas - assertiva na soberania e responsável nas alianças - não é, para todos, um paradoxo. Meloni é atlantista por convicção: vê a aliança ocidental como comunidade civilizacional e não como mera conveniência burocrática. Valoriza um património partilhado de valores, História e interesses estratégicos, mantendo simultaneamente ceticismo quanto à forma concreta da integração europeia e, internamente, uma política centrada em identidade nacional, família tradicional e reafirmação da soberania popular.

“Em política, as contradições são tão comuns que, muitas vezes, deixam de ser contradições em sentido estrito”, comenta Marco Improta, acrescentando: “O que observamos é, mais precisamente, uma estratégia que, por vezes, pode parecer incoerente ou mesmo ineficaz, tornando-se assim numa mera tática, mas que, no entanto, é estruturada.” Meloni terá percebido que uma postura de confronto com Bruxelas ou Washington implicaria custos muito superiores aos de utilizar uma retórica mais dura no plano interno.

Noutra leitura, analistas como Gerbaudo apresentam a política externa de Meloni como mais um caso de desfasamento entre retórica identitária e “realidade de oportunismo político e conservadorismo, que é bastante diferente das promessas revolucionárias de Donald Trump”.

Abrindo a Janela de Overton

A distância entre o ambiente político e a legislação é, de facto, visível. O tom do país mudou, mas Lorenzo Castellani defende que grande parte dessa transformação corresponde “a um realinhamento genuíno da sociedade italiana que precedeu Meloni, e que ela canalizou, em vez de criar”. A questão central é saber se a relativa moderação legislativa é sinal de receio ou de prudência. “Um Governo que chegou ao poder com receios de uma rutura radical e que, em vez disso, governou de forma gradual dentro das restrições constitucionais e europeias, pode ser razoavelmente creditado com um certo grau de responsabilidade institucional”, insiste Castellani.

Após três anos e meio, a alteração mais marcante é a normalização completa da direita italiana enquanto cultura de governo - o fecho de um processo iniciado com Silvio Berlusconi em 1994, mas que nunca ficara plenamente consolidado. “Pela primeira vez, um partido enraizado na tradição pós-fascista governou a Itália com estabilidade e credibilidade internacional”, num momento que Castellani descreve como “verdadeiramente histórico e que merece ser reconhecido como tal, em vez de ser visto apenas pela perspetiva das suas origens”.

Meloni (ainda) não transformou o Estado italiano de forma radical. Mas pode ter feito algo mais discreto - e, possivelmente, mais consequente: deslocou as fronteiras do que passa a ser politicamente aceitável, legítimo e governável dentro do Estado. E isso conta, porque o “discurso normalizado” de hoje acaba por se tornar o “espaço político disponível” de amanhã.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário