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Aung San Suu Kyi transferida para prisão domiciliária em Naypyidaw após anos isolada

Mulher idosa vestindo roupa tradicional branca, olhando pela janela com barras de ferro, dentro de uma sala iluminada.

A antiga dirigente de Myanmar, Aung San Suu Kyi, voltou a dar sinais públicos de que está viva depois de anos sem aparecer: as autoridades militares indicaram que foi retirada da prisão e colocada em prisão domiciliária na capital, Naypyidaw, após mais de cinco anos de detenção com contacto quase inexistente com o exterior.

Transferência para prisão domiciliária em Naypyidaw e amnistia

A decisão foi tornada pública na quinta-feira e insere-se numa amnistia que abrange mais de 1500 prisioneiros, assinalando um feriado budista que celebra o nascimento de Buda, segundo a Associated Press. No caso de Suu Kyi, foi também anunciada uma redução da pena, agora estimada em 18 anos.

A transferência foi acompanhada pela divulgação de uma fotografia - a primeira em anos - onde a antiga líder, de 80 anos, surge sentada num banco, com vestuário tradicional branco, diante de vários homens fardados. Ainda assim, permanece por esclarecer quando e onde a imagem foi registada.

Do golpe de fevereiro de 2021 ao isolamento prolongado

Para entender o alcance deste anúncio, importa recuar a fevereiro de 2021, quando os militares tomaram o poder através de um golpe de Estado, afastando o governo democraticamente eleito liderado por Suu Kyi. Detida no próprio dia do golpe, a ex-líder nunca mais foi vista em público desde então.

A tomada do poder desencadeou protestos de grande dimensão, que acabaram por se transformar numa guerra civil - um conflito que continua a moldar a realidade do país.

Depois de detida, Suu Kyi enfrentou sucessivos processos judiciais, com acusações como corrupção e violação de leis de telecomunicações. Apoiantes e organizações internacionais criticaram amplamente estes casos, considerando-os politicamente motivados e orientados para a afastar de forma definitiva da vida política.

Entretanto, a informação credível sobre o seu estado de saúde e as condições de detenção foi escassa. A equipa de advogados não a visita desde 2022, e circularam relatos não confirmados sobre eventuais problemas de saúde.

Reações: equipa jurídica, família, ONG e ONU

De acordo com o The Guardian, os seus advogados tencionam visitá-la em breve, o que poderá representar o primeiro contacto direto em anos. Ainda assim, a medida está longe de ser vista como uma libertação. O filho mais novo, Kim Aris, entende que a antiga líder permanece isolada.

“Mudá-la de local não significa libertá-la. Uma redução da pena de prisão e uma transferência para um local desconhecido não alteram a situação. A minha mãe, Daw Aung San Suu Kyi, continua a ser mantida refém e isolada do mundo exterior. Como seu filho, não recebi qualquer informação. O meu pedido é simples: a confirmação de que a minha mãe está viva, acesso a ela e a sua libertação”, escreveu o filho numa publicação no Facebook, pedindo inclusive “provas credíveis” de que a mãe se encontra viva.

Também várias organizações de defesa dos direitos humanos se mostraram cépticas quanto ao significado desta decisão. A Burma Campaign UK, uma organização não-governamental que promove os direitos humanos e a democracia em Myanmar, sustenta que se trata de uma manobra para polir a imagem do regime, sem mudanças reais no terreno.

É uma tática antiga dos militares birmaneses dar dois passos para trás e depois um para a frente, na tentativa de obter elogios por este passo em frente, mesmo que a situação esteja pior do que antes”, afirmou Mark Farmaner, diretor da organização, citado num comunicado.

No plano internacional, a reação foi mais prudente. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, através do seu porta-voz, classificou a transferência como “um passo significativo para criar condições para um processo político credível”, segundo declarações citadas pela Associated Press. Ainda assim, voltou a defender a libertação de todos os presos políticos e o fim da violência no país.

A medida surge numa altura em que a junta militar, liderada por Min Aung Hlaing, enfrenta uma forte pressão interna e internacional, mais de cinco anos após o golpe de Estado que mergulhou Myanmar num conflito armado prolongado, com milhares de mortos e dezenas de milhares de detidos por razões políticas.

Aung San Suu Kyi e a luta pela democracia em Myanmar

Figura central da luta pela democracia em Myanmar ao longo de décadas, Aung San Suu Kyi foi durante anos o símbolo da oposição ao regime militar. Entre 1989 e 2010, passou cerca de 15 anos em prisão domiciliária. A sua resistência não violenta valeu-lhe o Prémio Nobel da Paz em 1991.

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