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El Monastil revela um raro reduto bizantino no sudeste de Espanha

Homem a escavar e limpar mosaico antigo numa escavação arqueológica junto a rio e colinas.

Investigadores identificaram um complexo fortificado no topo de uma colina, no sudeste de Espanha, como um raro reduto bizantino criado por soldados e membros do clero no final do século VI.

Esta interpretação reposiciona o local como prova directa de controlo do Império Romano do Oriente em pleno interior da Ibéria, numa fase em que a fronteira estava em disputa.

Pistas na colina de El Monastil

No cume conhecido por El Monastil, perto de Elda, no sudeste de Espanha, as escavações revelaram, dentro de um único recinto, vestígios de um espaço religioso e achados de carácter militar.

Ao cruzar as evidências estratigráficas, Antonio M. Poveda Navarro, da Fundación Urbs Regia, sustenta que o conjunto começou por funcionar como uma fortificação do Império Romano do Oriente.

No seu estudo de 2026, o autor enquadra o morro no final dos anos 500, período em que o poder bizantino ainda mantinha posições no litoral próximo.

Com essa leitura, a ruína deixa de parecer apenas uma capela isolada e passa a ganhar a dimensão de um posto avançado de fronteira.

Estrada, rio, alcance

Situado acima do corredor do Vinalopó, o sítio dominava visualmente um ramal da principal via romana que atravessava a Hispânia.

A partir daquela altitude, seria possível controlar a circulação num estreitamento natural e defender acessos vindos tanto por terra como pelo rio.

Comparado com centros mais conhecidos, El Monastil ficava a cerca de 28,5 km de Ilici (actual Elche, na costa) e a aproximadamente 120,1 km de Cartagena.

Estas distâncias ajudam a perceber por que motivo um pequeno destacamento aqui poderia ter relevância muito para lá da sua escala, num contexto de fronteira intensamente disputada.

Armadura e autoridade

Entre os materiais recolhidos contam-se duas placas de ferro de uma armadura lamelar - faixas metálicas sobrepostas e ligadas entre si, criando uma protecção flexível -, indício associado a um soldado bizantino montado.

Surgiram também sete pesos de bronze; em conjunto, constituem o terceiro maior agrupamento conhecido na península de medidas oficiais bizantinas.

Como a legislação de Justiniano vinculava responsáveis eclesiásticos à cobrança de impostos, estes pesos apontam para uma igreja com funções administrativas, além de religiosas.

A coexistência de equipamento militar e instrumentos de medição sugere, assim, um mesmo complexo compacto onde culto, contabilidade e defesa se articulavam, em vez de esferas separadas.

Uma igreja de pequenas dimensões

No interior do recinto existia uma igreja com cerca de 84,5 m², terminando num fecho em ferradura e com uma piscina baptismal escavada na rocha-mãe.

Marcas de reboco pintado indicam um acabamento cuidado, apesar de a planta ser modesta quando comparada com igrejas de épocas posteriores.

Segundo práticas orientais, o clero ocupava grande parte do espaço interno, enquanto outros fiéis permaneciam com frequência nas laterais ou no exterior.

Deste modo, a reduzida dimensão do edifício enfraquece a ideia de que seria demasiado humilde para desempenhar um papel religioso e político significativo.

Objectos sagrados importados

Fragmentos de mármore trazidos da Grécia integravam o altar, sinal de que a comunidade no topo do morro participava em redes de circulação mediterrânicas.

Foi ainda encontrada uma píxide de marfim trabalhada - um pequeno recipiente para o pão consagrado - com a cena de Hércules a capturar a Corça de Cerinéia.

Poveda interpreta essa iconografia como uma fusão intencional de símbolos mais antigos com sentidos cristãos, sob imperadores que combinavam crença e autoridade.

Entre a pedra importada e o marfim esculpido, o conjunto ultrapassa o estatuto de capela local e insere-se na cultura visual mais ampla do império.

Os Visigodos assumem o controlo

Por volta de 600 d.C., o domínio visigótico substituiu a presença bizantina e a igreja do morro foi convertida em sede episcopal numa linha de fronteira.

Em 610, um bispo chamado Sanabilis assinou actas eclesiásticas como “bispo de Elo”, oferecendo ao local um raro ponto de apoio documental.

Essa elevação durou pouco: cerca de uma geração depois, entre 625 e 630, a sede foi encerrada e reintegrada em Ilici.

A curta duração desse estatuto sugere um posto sob pressão - suficientemente valioso para ser promovido temporariamente, mas demasiado exposto para se manter.

Regresso à vida monástica

Após o fim do bispado, o complexo voltou a ter uso monástico, com pequenas divisões agrupadas junto à igreja.

Erguidas acima do Vinalopó, essas dependências terão acolhido uma comunidade religiosa modesta, ligada ao cultivo de campos próximos e a um modo de vida mais recolhido.

É provável que o quotidiano no alto se tenha tornado mais austero à medida que administradores e comerciantes se deslocavam para centros maiores, com maior peso político.

Essa fase de maior fragilidade ajuda a explicar a importância das reutilizações posteriores: estruturas enfraquecidas são mais fáceis de desmontar e refazer.

Começa a reutilização muçulmana

Mais tarde, povoadores árabes reformularam o conjunto, transformando-o num enclave religioso islâmico e contribuindo para o nome pelo qual hoje é conhecido.

Uma forma árabe que acabaria por evoluir para El Monastil preservou a memória de um mosteiro, mesmo quando muros e elementos lavrados eram reaproveitados.

Construtores de épocas posteriores recorreram a spolia, isto é, ao reaproveitamento de peças antigas, espalhando cantaria cristã por novas salas e paredes.

Esses fragmentos reutilizados dificultam a leitura arqueológica, mas também documentam a “vida posterior” do sítio ao revelarem que elementos antigos foram valorizados por ocupantes mais tardios.

Porque esta raridade importa

Poucos locais na Ibéria reúnem, dentro de um só recinto defensável no alto, armadura, objectos de igreja, pedra de altar importada, pesos oficiais e contexto estratégico.

Até a pequena igreja reforça o argumento, já que postos de fronteira apertados costumavam concentrar culto, armazenamento e autoridade em plantas reduzidas.

Em vez de depender de um achado espectacular isolado, a proposta assenta numa soma de peças correntes que se confirmam mutuamente no plano da vida diária.

Ainda assim, há espaço para prudência, porque os arqueólogos reconstroem uma longa sequência a partir de materiais deslocados e reutilizados ao longo de séculos.

O que a colina revela

El Monastil passa a ser entendido como um lugar onde o império se materializou de forma prática - através de soldados, clérigos, impostos, ritual e controlo da circulação.

Novas campanhas poderão afinar a cronologia, mas a colina já mostra como um pequeno posto sagrado conseguiu atravessar sucessivas mudanças de poder.

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