Saltar para o conteúdo

Tinta de caneta azul e resíduos terrestres encontrados em meteoritos de Marte

Cientista de luvas brancas a examinar uma rocha em laboratório com microscópio ao fundo.

Cientistas detetaram tinta de caneta azul e outros resíduos terrestres em meteoritos de Marte.

Esta descoberta obriga a reinterpretar algumas das marcas mais pequenas destas rochas como uma ameaça direta à confiança com que os investigadores conseguem reconstruir o passado do planeta.

Tintas de caneta em meteoritos

Em seis meteoritos marcianos, os vestígios reveladores surgiram em superfícies cortadas, faces polidas, fendas e zonas manuseadas - precisamente onde o material verdadeiramente marciano deveria ter permanecido sem alterações.

A partir dessas marcas, Leire Coloma, da Universidade do País Basco (UPV/EHU), registou resíduos que pertenciam a procedimentos comuns de preparação em laboratório e ao manuseamento, e não a Marte.

O que apareceu não foi uma única substância isolada, mas sim uma combinação de tinta, detritos abrasivos e outros restos de origem humana incrustados em locais onde análises posteriores poderiam confundi-los com material nativo.

Esta sobreposição impõe um limite claro ao que estas superfícies conseguem revelar por si só e levanta uma questão mais ampla: como é que a contaminação chegou ali, em primeiro lugar.

Como surgiram os vestígios

Para aceder ao interior “fresco”, os cientistas cortam e polem lâminas depois de a atmosfera terrestre ter queimado a “pele” externa de cada meteorito muito antes de qualquer análise.

Esse processo expõe minerais ocultos, mas, em cada etapa, serras, pós, solventes e panos também entram em contacto com as superfícies frágeis.

A limpeza com etanol removeu grande parte das partículas soltas, mas alguns resíduos ficaram presos onde microcavidades e fraturas os protegeram no interior das amostras.

Quando estes vestígios sobrevivem à lavagem, testes posteriores podem interpretar restos de laboratório como pistas sobre a química marciana.

O que os lasers revelaram

Com recurso à espectroscopia Raman - um teste a laser que identifica moléculas a partir da luz espalhada - a equipa analisou cada ponto suspeito.

Como materiais distintos devolvem padrões de luz diferentes sob o laser, os sinais de tinta, diamante e minerais não se confundiram num único traço ambíguo.

Foram identificados sete contaminantes nas amostras preparadas, repartidos entre detritos do processo de preparação e resíduos deixados pelo manuseamento humano.

Por detetar restos microscópicos à superfície, este método pode expor problemas antes de os cientistas retirarem conclusões excessivas a partir de uma amostra.

Porque é que a tinta foi importante

A tinta de caneta azul foi relevante porque parte da investigação sobre Marte procura moléculas orgânicas - compostos à base de carbono associados à química da vida - em amostras muito pequenas.

O pigmento azul 15, um corante azul comum em canetas esferográficas, surgiu em locais onde os cientistas precisavam de sinais de carbono limpos durante varrimentos sensíveis.

Também foi detetado, numa amostra, um corante de caneta de gel, mostrando que o manuseamento comum pode deixar química “presa” na rocha.

Estas manchas não provam má ciência, mas evidenciam que cada marca precisa de um registo rastreável desde a recolha em diante.

As ferramentas deixaram minerais

As ferramentas de preparação deixaram vestígios mais duros: foram encontrados grãos de diamante dispersos em duas superfícies polidas de meteoritos marcianos após a preparação.

O pó de diamante foi usado para polir as lâminas, mas alguns grãos permaneceram encaixados em fendas mesmo depois de limpeza ultrassónica - agitação em líquido a alta frequência para soltar partículas.

A equipa detetou ainda carbeto de silício, um abrasivo duro utilizado no polimento, nas mesmas duas amostras apesar da limpeza.

Estes achados são importantes porque ambos os materiais podem parecer significativos, a menos que os investigadores saibam exatamente como a lâmina foi produzida desde o início.

Lubrificantes acrescentaram ruído

Um contaminante mais “escorregadio” apontou para lubrificantes, os líquidos usados nos laboratórios para reduzir o desgaste entre peças móveis durante a preparação.

O composto era dialquilditiocarbamato de molibdénio, um aditivo redutor de fricção comum em óleos, identificado em dois meteoritos analisados.

A presença deste tipo de molécula importa porque as rochas de Marte podem conter compostos orgânicos, mas nem toda a molécula complexa encontrada numa amostra vem necessariamente de Marte.

Sem um rasto mais limpo, um laboratório pode acabar por perseguir, por engano, a assinatura de um lubrificante em vez de um sinal planetário.

O manuseamento deixou resíduos

O manuseamento acrescentou um segundo problema, porque material não polido apresentava, ainda assim, resíduos semelhantes a tinta na superfície após contacto de rotina.

Um meteorito não preparado, proveniente de Marrocos no Norte de África, exibiu pigmento de caneta azul mesmo sem a etapa de corte e polimento.

Também apareceram tinta de impressão e poliéster azul, uma fibra sintética comum, ligando a contaminação a etiquetas, embalagens, roupa ou simples contacto.

Para os cientistas, a lição é direta: uma preparação cuidadosa não compensa um manuseamento descuidado depois de a amostra sair da bancada.

A devolução de amostras aproxima-se

As futuras amostras de Marte aumentam o risco, porque o Perseverance selou testemunhos destinados a uma possível devolução à Terra por missões futuras.

A NASA concebeu tubos de amostragem ultralimpos para que o material devolvido transportasse menos resíduos terrestres desde o início da missão.

Ainda assim, quando esse material chegar à Terra, os laboratórios terão de cortar, montar, polir e partilhar porções minúsculas sob controlos rigorosos.

Um único corante fora do lugar pode enviesar debates sobre água antiga, atividade vulcânica ou possíveis processos químicos ligados à vida.

Tinta de caneta, meteoritos, ciência espacial

Protocolos mais limpos começam por registar todas as ferramentas, solventes, abrasivos, panos e instrumentos de escrita perto da rocha antes de iniciar o trabalho.

Trocar as lavagens finais de etanol por outros solventes - líquidos que dissolvem ou transportam resíduos - pode ajudar a remover diamante.

Em amostras ricas em argila ou porosas, líquidos apolares, que não se misturam com água, podem evitar inchaço ou desagregação.

"São necessários protocolos de preparação limpos para amostras extraterrestres", escreveram Coloma e colegas, depois de relacionarem resíduos com etapas específicas de manuseamento.

As marcas de tinta e os resíduos de ferramentas não apagam o valor dos meteoritos; tornam esse valor mais fácil de proteger.

Trabalho futuro pode transformar este alerta em verificações de rotina que mantenham a química de Marte separada da confusão terrestre nas próximas missões.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário